...Prelúdio da Solidão...

(¯`·._.·[CAPITULO UM]·._.·´¯)

          - Estou com frio... estou só... alguém... por favor... alguém...  alguém me console... – dizia uma voz melancólica e tétrica... entoava como um mantra... repetia cada vez mais baixo e mais triste... quando tudo se cessou... um silencio alastrava-se pelas brumas negras... um par de olhos frios, e uma risada histérica e raivosa quebraram o silencio...

            Michel acordou assustado e ofegante... suava frio... novamente aquele sonho... já o tivera por diversas vezes... e cada vez piorava mais... tornava-se mais real... e mais aterrorizante... tremia... levantou-se indo pegar um copo de água... tomou ainda tremendo... ficou nervoso consigo... – Imagine, um homem de 27 anos com medo de pesadelos!! – falava para si indignado... mas, não conseguiu dormir novamente... mais uma noite mal dormida... olhou para o pequeno apartamento... ou escritório... um sofá-cama... uma escrivaninha... um arquivo de metal... prateleiras... o banheiro... e a minúscula cozinha... e tudo na mais completa bagunça... o apartamento de um homem... precisava de uma faxineira urgentemente... se aparecesse algum caso, era bem provável que o cliente fugisse quando visse a bagunça do escritório... clientes... faz tempo que não encontrava nenhum... desanimado, foi em direção ao banheiro... precisava de uma ducha...

            Depois de ter tomado o banho, somente com a toalha enrolada na cintura, pegou um pedaço de pizza fria que estava em cima da escrivaninha, sentou-se no sofá cama, e pegou o telefone...

 - Alô, é da agencia de empregadas?... gostaria de contratar uma... sim.. sim... pode ser... não é só uma vez a cada dez dias... não precisa fazer comida... não... quanto?!... Tá, ela pode começar quando?... hoje mesmo... que bom!... o endereço... claro, é a rua Farmes Tié, 69, apartamento 33... meu nome é Michel Fullmart... sim, sou eu o detetive... bom dia! – desligou irritado... – as pessoas não têm respeito mesmo! – pensou nervoso – só porque eu me enganei num caso... virei chacota da cidade toda! Que merda!

        Sim ele havia perdido um caso... um caso importante... por uma besteira... a ladra o enganara muito bem... maldita mulher... arruinou sua carreira... era muito conhecido e respeitado... era um dos melhores detetives... e um dos mais jovens na área... agora estava na mais completa desgraça... tudo porque se encantou por um rabo de saia... levara todo o dinheiro de seu cliente, e o fizera de tolo... o expôs ao ridículo... o antigo cliente se revoltara e espalhou sua humilhação para a cidade inteira através do radio e tv... – velho maldito!... faz mais de um ano que aconteceu, e não consegui mais nenhum cliente... preciso mudar de profissão! – concluiu pensativo... Levantou-se, procurando alguma roupa espalhada pelo apartamento... achou uma calça vestiu-a e sentou-se na cadeira giratória, lendo o jornal de ontem... – Nada! Como sempre! – exclamou em voz alta... Olhou para a janela, já era manha... estava um dia bonito... poderia sair... a campainha o tira de seus pensamentos, se levanta indo abrir a porta... era a empregada que contratara... uma mulher na casa dos 60 anos, baixa e rechonchuda, com um olhar muito serio...

         - Ahm... a senhora deve ser a faxineira? – perguntei estranhando o modo como ela me encarava.

         - Sim, sou eu mesma! – respondeu prontamente – meu nome é Sofia... não vai me convidar para entrar?! – perguntou emburrada.

         - Ahm... sim, me desculpe... – a vi entrar, e olhar horrorizada para a bagunça do apartamento, mas logo voltou seus olhos castanhos para mim, me olhava muito fixamente... resolvi arriscar: - algum problema, senhora?!

        Olhou-me espantada com a pergunta, mas se refez logo, me respondendo: - comigo, nenhum... mas, não garanto o mesmo para o senhor! – virou o rosto novamente para o apartamento, e suspirando perguntou mudando de assunto – aonde eu encontro os produtos de limpeza?

        Ela me deixou transtornado... se eu tinha problemas... era brincadeira, né?! Estou atolado em problemas... tantos que eu acho que ela nem imagina... vi ela se emburrar esperando por minha resposta: - estão na cozinha debaixo da pia...

         - E o senhor pretende ficar aqui no apartamento enquanto eu limpo?

         - Não... vou sair... – respondi vendo a impertinência da mulherzinha... peguei uma blusa e saí, ouvindo ela dizer sombriamente...

         - ... tome cuidado... ou então encontrara algo que não o agradará...

        Fechei a porta mais transtornado do que já estava... mulher estranha... caminhei pela rua... um dia tranqüilo... entrei num parque... caminhei entre as arvores... e sentei num banco... fechei os olhos... e de repente senti um tremor correr por meu corpo... abri os olhos rapidamente... vi um rapaz muito sujo e rasgado, com marcas em seu pulso chorando... tinha os cabelos claros e compridos, não era muito alto... deveria ter no máximo uns 16 anos... ele olhava diretamente para mim... eu conhecia aquele olhar... quando levantei para conversar com ele, saiu correndo... sem pensar fui atrás dele... vi ele virar uma esquina... e... não o vi mais... sumira... fiquei desapontado... olhei para o céu em desanimo... e vi uma coisa que me espantou ao estremo... em um dos prédios que demarcava a rua, no ultimo andar, estava um homem pendurado... morto com certeza... olhei-o mais atentamente... de onde eu estava não dava para ver muita coisa, pois o prédio era alto... mas, ele estava amarrado... as mãos e os pés juntos, preso por uma simples corda... dava para ver o horror na face do homem, de tão transtornado que estava... seu corpo estava dobrado, com o peito a mostra... ouvi um grito... uma mulher na rua vira o homem... uma multidão se formou rapidamente... – Malditos curiosos! – pensei frustrado... logo chegaria a policia... fui embora... não queria me envolver com a policia novamente... ouvi um homem me chamando... ignorei e tomei meu caminho...

        Ao chegar no meu apartamento, quase não o reconheci... estava limpo e arrumado... como jamais estivera... vi a mulherzinha na cozinha creio que terminando algo... fechei a porta e ela me encarou com espanto...

 - ... não fez o que eu te aconselhei, não é senhor?! – perguntou ainda me fitando.

 - O que a senhora quer dizer com isso?!

        Ela sorriu... balançou a cabeça negando... – o senhor não é o detetive?!... procure descobrir e previna-se... mas creio que o senhor já encontrou o que eu temia... mas sei também que o senhor quem o procurou...

        Quando ia perguntar-lhe o que diabos significava tudo aquilo a campainha tocou... fui atender... era a policia... com um de seus representantes mais imbecis...

         - bom dia, senhor detetive! – falou um homem, com os seus 34 anos, cabelos castanhos curto, olhos da mesma cor, alto, e forte... com um sorriso irônico estampado no rosto...

         - bom dia... cabo César... – falei no mesmo tom, vendo o outro fechar o sorriso.

         - Você sabe muito bem que eu não sou mais cabo!... e há muito tempo... – olhou-me com superioridade e continuou – sou detetive agora... detetive de verdade... – olhei com todo desprezo que possuía - ... mas, não vim aqui para isso... sei que você foi o primeiro a ver o corpo encontrado na esquina do parque... quero que você venha até a delegacia comigo para prestar depoimento...

         - não vou! – disse somente – não quero me envolver em nada do tipo...

        O detetive me encarou, e sorrindo falou: - e quem disse que eu quero que você se envolva?!... você é bem capaz de arruinar o caso... só quero que me fale o que fazia lá, e como o encontrou... e só!

        Agora fiquei irritado de verdade... homenzinho petulante... fechei a porta na sua cara, indo sentar no sofá-cama e ligando a tv... ouvi-o bater na porta diversas vezes... Chamava-me insistentemente... minha empregada encarou-me feio pelo canto de olho... bufou e foi atender a porta...

         - Olha aqui, rapazinho! – começou irritadíssima – pare com essa esmurração na porta! Meu patrão não vai atende-lo! Pare de encher! E acho que você deveria ser mais educado com as pessoas, se quiser atenção delas!!! – e fechou a porta novamente, deixando o detetive com a boca aberta...

         - Adorei esta senhora Sofia!... acho que deveria lhe dar um aumento... não melhor não... não sei por quanto tempo ainda terei para me sustentar sem trabalho! – pensou – aquele detetive de araque mereceu!...

        Fiquei vendo tv durante um longo tempo... mas minha mente vagava longe... pensava no rapaz que encontrei... o olhar triste... conhecia-o de algum lugar... - mas de onde?! – indagou-se em voz alta, chamando a atenção de Sofia, que se arrumava para ir embora...

         - ... não o procure, senhor... – falou me encarando.

        Uma intuição me ocorreu... ela de algum modo sabia sobre o rapaz... parecia que ela conhecia, pois se não o fosse, do que afinal ela falava...

         - não procurar por quem, senhora Sofia?! – indaguei curioso.

         - O senhor sabe de quem eu falo... o rapaz do parque... – olhei-a surpreso, ia-lhe perguntar algo, mas ela me cortou - ... não o procure para o seu próprio bem! E adeus, até daqui a dez dias... – e me olhando severamente – e vê se não deixa a casa neste horror que estava hoje de manha! – e foi-se...

        Essa mulher não é normal... conclui finalmente... Levantou-se indo pegar algo para comer... - geladeira vazia! – falou... pegou um dinheiro, e saiu a procura de comida... Parou em um bar-restaurante... após ter comido, foi dar uma volta novamente... o ar da noite estava frio, mas muito agradável... andava sem rumo... quando deu por si, estava no mesmo banco que encontrara o rapaz aquela manha... sentou-se, olhando para a lua cheia...

         - Detetive! – chamou uma voz já conhecida.

         - O que quer, César?!

         - Nossa! Quanto mau humor! – riu – o que faz por aqui?!

        Encarei-o... mas, que cara chato! – não é da sua conta! – respondi malcriado.

            Ele se sentou, e falou seriamente: - Ah! É sim senhor!... você esta na cena de um crime... – fitei-o surpreso – e esteve em outro de manha!

            Olhei ao redor, uma grande quantidade de policiais cercavam a área... - como não os percebi?! – pensei... encarei-o como se este pensamento nunca houvesse me ocorrido: - o que aconteceu aqui, César?

            Ele me encara pálido e parecendo muito enjoado – Um outro crime igual ao outro... mas desta vez foi uma mulher com uns 25 anos... – esperei que ele continuasse, parecia muito transtornado, o que não era normal para um policial que investigava crimes... – você viu o corpo do homem?

         - não deu pra ver muito bem...

         - ahm... bom pra você...

         - porque César?!... você esta amolecendo com o tempo! – ironizei.

         - Se você tivesse visto duvido que não ficaria impressionado! – falou serio – o homem estava muito bem amarrado... mãos e pés juntos... um horror... pobre homem... tinha só 30 anos... - falava lamentando - ... na autopsia cortamos as cordas... as costas dele estavam totalmente dilaceradas... apareciam os órgãos e ossos... na frente, ele estava todo roxo... marcas circulares por toda parte... e a expressão de pavor dele... nunca vi nada assim, Michel... nunca!

        Não conseguia falar nada... realmente era uma cena nada agradável... César parecia muito transtornado... - ...e aconteceu a mesma coisa com a mulher?

         - não... – falou somente – pior... ela foi estrupada... teve seu coração arrancado, e de acordo com os legistas ela ainda estava viva quando o tiraram... ela esta pregada naquela árvore... – disse apontando para uma bem em frente ao banco – venha ver...

        Levantamos, demos a volta na árvore e eu a vi... os peritos a tiravam da arvore... parecia que ela me encarava... seu rosto jovem tomado de terror e medo... o corpo pregado com pedaços de metal... as costas também dilaceradas, com um buraco aonde seria o coração... e sangue... muito sangue ainda escorria dela...

         - ... não encontraram nenhuma testemunha? – perguntei ao pálido César.

         - não... ninguém viu ou ouviu nada... – foi interrompido por um policial que chegara lhe entregando documentos... provavelmente a identidade da mulher... ele me olhou surpreso – Michel, você não reconhece essa mulher?!

        Estranhei a pergunta, olhei para o corpo novamente... olhei seus traços... – Não pode ser! – pensei aterrorizado...

        César vendo a expressão de Michel, afirma: - É ela, Michel!... a sirigaita do ano passado... aquela daquele caso que você perdeu!

         - Não pode ser ela! – falei transtornado – Não pode ser ela! – peguei os papeis da mão de César e verifiquei... era ela mesma... – como?! Porque ela estaria aqui!?

         - não sei... mas eu vou ter que te deter... – me olhou serio - ... você estava nas duas cenas, e essa aqui você teria muitos motivos – encarei-o irritado para que se calasse - ... bom, você é um suspeito... o único na verdade... terá que vir comigo!

         - Você sabe que não fui eu! – falei irritado – fiquei no apartamento a tarde toda!... mas, irei... agora eu quero entender esse caso! – virei e fui em direção ao carro dele que se encontrava perto dali... vi que o inútil do César não me seguia, gritei alterado: - você vem ou não vem?!

        Vi se aproximar se desculpando... por mais que minha carreira estivesse arruinada eu ainda era um dos melhores...

        Na delegacia, César e Michel, foram cumprimentados... foram para uma sala minúscula, para o interrogatório... César fez tudo por pura burocracia... sabia que Michel não faria isso...

         - Como vai teu irmão, Michel? – perguntou quebrando o silencio depois do interrogatório...

         - Acho que bem... faz tempo que não o vejo... – respondeu melancólico – pensei que você soubesse dele... eram tão próximos...

         - é verdade... mas aconteceu muita coisa... e ele foi embora... depois disso nunca mais o vi... – César o encarou... ele sabia o que havia acontecido... era esperto o suficiente para saber... respirou profundamente, e indagou: - Michel, será que você me ajudaria nesse caso?

        Ele o encarou incrédulo... porque pedia por ajuda?!... ele era inútil, mas conseguiria resolver esse caso... a não ser que... sim só poderia ser... levantou-se da cadeira, e indo embora respondeu: - Você é um péssimo mentiroso, César!... diga para meu querido irmão, não se preocupar comigo... me viro muito bem sozinho... e sei que você também é capaz!

        Foi embora, deixando César em sua sala... pegou o telefone e discou...

         - Dennis...

         - Oi César... e como foi a conversa com o meu irmão?

         - Você o subestimou... percebeu que você pediu para que eu o ajudasse a sair do marasmo da vida dele...

         - ai esse meu irmão não tem jeito!... o problema, César, não é o marasmo, e sim que ele esta numa depressão profunda... toda vez que eu ligo ele desliga o telefone... estou preocupado com ele... você acha que é por minha causa... acha que ele não quer falar comigo por aquilo?

         - Não fale besteiras!... seu irmão nunca iria se afastar de você por causa disso!... senão já teria feito a mais tempo, não acha?!... ele ficou assim depois do que aconteceu o ano passado...

         - É eu sei... por causa daquela maldita! Ele chegou até me apresentar a ela... porque uma pessoa faria o que fez com ele... ele é muito bom... queria vê-la trancafiada e mofando numa cadeia!

         - esse era o meu desejo também, Dennis...

         - Como assim “era”?!

         - ela foi assassinada, Dennis... brutalmente assassinada... estão acontecendo por aqui uns casos muito sinistros... os dois hoje, e seu irmão estava nas cenas dos crimes... pensei em chamá-lo... em atender ao seu pedido... mas, ele é muito cabeça dura!

         - ele está envolvido? – perguntou apreensivo do outro lado da linha.

 - Claro que não!

         - Fico mais aliviado... eu vou entrar de férias daqui do hospital amanha... vou pra aí... você me pega na estação?

          - Você acha realmente que eu não iria te buscar!... me diz qual é o horário do seu ônibus?

         - é o das 7... acho que vou chegar aí umas dez horas... não vai ter problema mesmo?!

         - não! Não vai ser problema nenhum... você vai ficar na minha casa, né?!

         - humm... provavelmente... vai depender da hospitalidade do meu irmãozinho... e se o apartamento dele estiver do mesmo jeito que eu vi da outra vez... prefiro dormir até no teto do seu apartamento!

        Dennis e César riem, e este responde: - não se preocupe... vi uma mulher muito protetora limpando a casa dele...

         - Mulher protetora?!

         - sim... ela quase me bateu porque eu fui um pouco sem educação com o Michel..

         - “um pouco sem educação”... sei... você deve ter sido um grosso... dou razão a ela!... ai! Tenho que desligar César! Amanha, heim... não se esqueça!

         - Não esquecerei... vou te esperar ansioso! Beijos, tchau!

         - Beijos... e até amanha!

        César colocou o telefone no gancho, com um sorriso no rosto... precisava conversar com Michel... sabia que realmente precisaria da ajuda dele... este caso não é normal... mas seria muito difícil convence-lo depois disso...

        Michel abriu a porta de seu apartamento, a fechando com raiva... como seu irmão se atrevia!!... não precisava da caridade de ninguém!!... principalmente de César... mas, seria muito bom trabalhar... principalmente nesse caso...

         - Porque alguém a mataria... – perguntou-se indo tomar banho – bom, eu teria motivos de sobra... muito estranho ela estar por aqui... deveria estar longe como previ... vejo que me enganei de novo! – pensou mais um pouco – Não! Não me enganei... ela estava muito longe...

        Depois de seu banho deitou-se no sofá-cama e adormeceu...

        “Estava novamente no parque... um dia muito claro... Michel sentou-se no banco e esperou... quando finalmente o viu... o rapaz não estava mais com a aparência maltratada... estava muito bem vestido... tinha um belíssimo cabelo prateado... mas, ainda tinha o semblante triste...

         - Porque esta assim?! – perguntou Michel preocupado.

        O rapaz ao ver que ele conversara com ele... correu e o abraçou... chorava... mas de alegria... ele o vira... conversara com ele... Michel não se esquivou do abraço... convidou o garoto a se sentar ao seu lado para que conversassem...

         - Meu nome é Michel... e me diga o seu, sim?

        O rapaz o encarou com seus olhos azul-profundo... – Meu nome é Christian...

         - é um belo nome, Christian... quantos anos têm?

         - tenho 23 anos – Michel espantou-se, o rapaz não parecia ter essa idade... – e o senhor? – perguntou timidamente.

         - não precisa me chamar de senhor... temos praticamente a mesma idade... tenho 27... você esta sempre por aqui?

        O rapaz se entristeceu novamente... – Sim... fico em outros lugares também... mas, gosto daqui... é muito bonito...

         - Também acho... gosto daqui... me faz esquecer os problemas... – Christian o encarou surpreso, e Michel indagou – O que foi?

         - Venho para cá pelo mesmo motivo... – sorri abertamente – que bom que lhe encontrei...

        Neste instante, Michel acorda ao som da campainha que dispara freneticamente... estava nu... a toalha que o cobria estava largada no chão... levantou-se e procurou uma bermuda impaciente pela insistência da campainha

        - Já vou!! – gritou irritado pondo a bermuda e abrindo a porta... depara-se com um homem com 30 anos, cabelos pretos, olhos verde-escuro, pele clara, e estatura mediana sorrindo – Dennis... – fala reconhecendo o irmão...

        Dennis surpreende abraçando fraternalmente o irmão... – Você não tem jeito, né irmãozinho?! Não me cumprimenta?

         - Desculpa, Dennis... é que eu não esperava vê-lo... entre! – disse sem muita emoção e ainda com sono.

         - Puxa... esperava uma recepção mais calorosa, Mi! – falou em tom de deboche... sabia que ele detestava esse apelido... se percebia muito bem na expressão mau-humorada... riu se divertindo – haha... você não muda!

         - Cala a boca! – disse se descontraindo – então, pretende ficar quanto tempo nessa droga de cidade?

         - Não sei... vai me hospedar aqui? – falou observando o apartamento muito bem organizado... tirando o sofá-cama – quem foi a santa milagreira que conseguiu deixar esse apartamento organizado por mais de duas horas?

         - haha... muito engraçado! – falou sarcasticamente – até parece que o César não te falou nada sobre a Sofia... ele fica me vigiando, sabia?! – o encarou severamente vendo o irmão disfarçar...

         - mas porque será que ele esta te vigiando, maninho?! – perguntou se fazendo de inocente – posso perguntar pra ele, se quiser...

         - pergunta! E fala pra ele parar com isso! Sabe que eu não preciso de babá! – explodiu.

        Dennis ficou serio e encarou o irmão fixamente: - Não precisa, heim?!... então porque não atendia aos meus telefonemas?... e aos da mamãe?! – Michel o encarou assustado – é Michel, a mamãe me ligou, tamanha era a preocupação com você!! Imagina ela me ligar... sabe há quanto tempo eu não falava com ela?!... quase doze anos!! Doze anos!!... e ela esqueceu tudo só para saber de você! E ainda me diz que não precisa de babá?! – Michel não o encarava mais... sabia quanto estava preocupando a todos... merecia esse sermão... e pelo visto estava longe de acabar - ... você fica assim agora com esse olhar de que aprontou alguma arte... você pensa que eu esqueci do que aconteceu no final do ano passado?!... pensei seriamente em te internar na Clinica... mas você havia me garantido que estava melhor, que iria superar... Mentira!... Tudo mentira!!... – Dennis andava de um lado para o outro nervoso e preocupado – eu devia ter imaginado!... sou um psiquiatra afinal!... um péssimo profissional... pois não percebi... quase não consigo te salvar depois de você quase ter se matado... por causa de tudo aquilo... porque você não pediu ajuda?! Porque você tem ser tão cabeça dura?!... eu não deveria ter te deixado sair!... não desse jeito! – ele ficou frente a frente com o irmão... o encarava com os olhos cheios de lagrimas... passou a mão pelo cabelo de Michel fazendo-lhe um carinho... falou ternamente: - por favor, irmãozinho, promete... promete para mim que não irá tentar nenhuma besteira?!... promete?! – viu Michel assentir, mas continuava preocupado com ele... sua depressão estava piorando a cada dia... puxou ele para se sentarem, respirou profundamente – Michel, você quer ficar de novo lá na Clinica por uns tempos?!... até você melhorar?... lá eu posso te ajudar... aqui você esta longe de mim, não consigo vir pra cá sempre... tenho os meus pacientes lá... não posso sair muito, entende?!

Michel sabia que seu irmão jamais pensaria em prejudica-lo... fazia pelo carinho que sentia... mas não queria ficar preso em clinica psiquiátrica nenhuma... precisava provar para ele que não precisava... – não preciso... serio... estou melhorando... vivendo... estou procurando emprego... um outro tipo de emprego... estou me virando... não precisa se preocupar! – viu que o irmão não acreditara em suas palavras, mas sabia que ele não insistiria falando... ele o avaliaria...

 - esta bem, Michel... não vou falar mais nada... mas quero que você se mexa! Você vai ajudar o César nesse caso! – antes que Michel esbravejasse, o interrompeu – Não quero ouvir nenhuma negativa a respeito disso!... ele me contou como é complicado esse caso, e vai ser uma ótima oportunidade pra você trabalhar... e essa é a sua especialidade!... bom, eu vou embora... vou ficar no apartamento do César... se precisar estarei lá... e nós nos encontramos mais tarde na hora do almoço! – falou se levantando.

 - O César ficou lá em baixo?!

             - É ficou... ele acabou de me pegar na rodoviária... pedi para que ele me trouxesse aqui para te ver! – sorriu – ele não é uma graça?!

            Michel sorri também – É sim! Agora cai fora! Você me acordou no meio de um sonho... – Michel parou e lembrou do sonho... Christian... será que ele existia mesmo?!... foi tirado de seus pensamentos...

             - Você continua muito mau-educado! Vou embora sim! Mas nos vemos a uma no Saint´s, entendeu?! – abriu a porta se retirando descendo as escadas do prédio, falou em voz alta para o irmão que estava na porta – E vê se não volta a dormir! Já são dez e meia!!

            Dennis entrou no carro, onde César o esperava com o semblante tenso...

             - como foi a conversa com o seu irmão?

             - Você sabe tão bem quanto eu que não deu em nada... ele é turrão de mais!... mas dele eu cuido mais tarde! – falou agarrando a camisa de César, dando-lhe um beijo ardente... separaram-se e disse ofegante – ... senti muito sua falta... César...

            César riu ligando o carro, e disse safado: - eu percebi... também senti muito a sua falta... você vai ver o quanto lá em casa...

            Dennis riu... e os dois permaneceram em silencio durante o percurso... César estacionou o carro na garagem do prédio... travou as trancas do carro... Dennis o olhou preocupado... César o puxara para seu colo...

             - Chegamos! – disse beijando Dennis e abrindo sua blusa...

             - Jáhmm... – diz gemendo, sentindo César chupar seus mamilos - ... não é melhor continuahmm láhmmm em cimahmm! - ele começa a acariciar seu falo por cima da calça e a lamber seu pescoço – ahmmm pára... – pediu sem muita convicção... César afasta o banco para trás, abre o zíper da calça de Dennis, que tentava resistir a suas investidas... mas é vencido facilmente quando começa a masturba-lo e a beija-lo...

            Dennis, enlouquecido de tesão e saudades, empurra César para o banco, tirando sua calça, e abrindo a dele... senta-se no mastro de César gemendo alto... apóia suas mãos no peito de César... Dennis começa a subir e descer... numa cadência deliciosa, aos sons dos gemidos e suspiros dos dois... César pega o falo do amante e o masturba ao ritmo das estocadas... os dois gozam juntos, e Dennis se deita no peito de César se acalmando...

            - você podia ter esperado até chegar em seu apartamento... – falou fingindo aborrecimento.

            César ri, e comenta malicioso – Mas, já estamos na minha residência... e outra – tocou em seu queixo, o encarando – você não agüentaria até chegarmos no apartamento! – o beija rapidamente para que ele não tivesse oportunidade de responder.

            Dennis sorri – Temos que fazer isso mais vezes!

             - O que?! – pergunta inocente – passear de carro?!

             - sabe, estou começando a concordar com meu maninho... você é um péssimo detetive! – riu se divertindo, dando um beijinho na ponta do nariz de seu companheiro – o “meu” péssimo detetive... – voltou a deitar-se no amplo peito - ... acho que eu vou largar a clinica...

             César o encarou serio agora – Não faça isso... não é o que você quer!

             - Eu sei, mas... eu fico longe do meu irmão e de você... é muito ruim... mesmo você indo me visitar lá uma vez por mês... é muito tempo sem te ver...

            César o beijou suavemente – Se você quiser sair de lá eu vou te dar todo o meu apoio... mas, você tem que pensar a respeito... é um emprego muito bom... e você é praticamente um dos chefes de lá... você não pode sair de lá por esses motivos... se for tem que ser porque você pensou muito e decidiu desta forma... não faça por se sentir pressionado por sua mãe...

            - ... como você sabe que ela me pediu isso?

            César riu – Vai ver eu não sou tão mau detetive assim, não é?! – acariciou o rosto dele e continuou: - é obvio que a sua mãe te pediu isso... você não me falou, mas, eu percebi... não se culpe por ele nem por ela... seu irmão esta passando por uma fase ruim... ele vai se recuperar, não se preocupe tanto! – disse fitando os olhos verdes de Dennis... tentava passar confiança a ele... mas ele próprio não tinha muita certeza de que Michel se recuperasse facilmente... porem precisava tirar esse peso das costas de seu amado.

            - Obrigado, César... – falou emocionado.

Beijaram-se mais uma vez, se trocaram e foram para o apartamento.

Michel ficou encostado na porta, logo depois que seu irmão saiu... ele viera visitá-lo... desde que saíra da clinica não o vira mais... deve ter dado muito trabalho... até sua mãe ele não recebia... ela chegou a ponto de ligar para o irmão, que estavam brigados a mais de doze anos... o pai o expulsou de casa ao descobrir que ele e César eram namorados, e ainda proibiu a mãe de falar com Dennis... foi muito difícil para ambos...

         - ela deve ter ficado muito feliz por ter falado com ele... – falou baixinho para si – ... acho que, apesar de tudo, fiz uma coisa boa... – se jogou no sofá-cama dormindo novamente...

Estava num lugar escuro... parecia uma floresta... caminhava rapidamente... ficava mais claro a cada passo... Deparou-se com uma casa antiga... parecia abandonada... estava praticamente destruída... Ele entrou na casa... ouvia um choro muito baixo... vinha do chão... Michel procurou a entrada para o porão, mas não a achava... o choro persistia...

         - Você esta me ouvindo?! – gritou – Vou te ajudar... mas preciso que você me diga aonde é à entrada do porão!

Ele parou... ouvia o choro ainda... começou a procurar novamente... olhou alguns moveis destruídos pelo tempo... pareciam queimados... a casa deve ter pegado fogo, pensou... andou procurando, deparou-se com uma cozinha... ou o que restou dela... viu um pequeno alçapão... correu para abri-lo... era muito escuro... havia um cheiro de queimado... e o choro mais alto... desceu por uma escada estreita, se curvando para entrar... viu um menino todo encolhido encostado num canto...

         - Menino... – chamou cauteloso... observou ele erguer o rosto... estava muito sujo, fuligem, provavelmente... os cabelos claros e compridos mau cuidados e com as pontas queimadas... mãos, pés e rosto machucados... suas mãos estavam presas com correntes, que estavam enfincadas na parede... ele ainda chorava... seus olhos azul-escuros... Michel o reconheceu... – Christian?! – indagou depressivo por ver ele daquela forma... foi em sua direção, o soltando... mas ele não se moveu... apenas chorava... uma tristeza imensurável tomava conta de Michel... não conseguia fazer ele se mexer... começou a chorar também... o abraçou... sentiu seu rosto arder e ouvia, insistentemente, o seu nome...

 Continua...

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